Uma cena digna de uma história em quadrinhos acontece no final de uma tarde perdida no tempo, na Belo Horizonte no fim dos anos 90.

Um homem vestindo um terno amarelo, como o do Máscara e com uma gravata berrante irrompe através dos carros parados no sinal vermelho da Afonso Pena, esquina com Bahia, segurando uma enorme placa igualmente amarela com o nome de seu personagem Celton e uma frase que poderia ser um lema : “Estou vendendo as revistinhas que eu mesmo fiz”.

O heroico quadrinista solitário vendia seus quadrinhos em meio aos automóveis parados como um vendedor de balas. Quando o sinal ficou verde tanto eu quanto o homem de terno amarelo ficamos ilhados no meio do canteiro central da avenida. Foi neste dia que conheci o único autor de quadrinhos que se confunde com sua obra, para a maioria das pessoas o difícil nome de Lacarmélio foi substituído pelo nome fantasioso de seu personagem Celton.

Sua criação é um extraterrestre gente boa e de forma humana como o Clark Kent, mas diferente do jornalista Kriptoniano, Celton é um mecânico que de Super Homem só tem os  poderes, uma enorme força física e velocidade sobre humanas.  Celton nasceu como um cientista, e teve até a alcunha de Homem-Felino. Hoje em sua encarnação de mecânico é o paladino de Belo Horizonte, já lutou contra estátuas vivas da capital mineira, seres sobrenaturais como a Loira do Bomfim e o Capetão do Vilarinho, resolveu sequestros e muitas confusões com seus superpoderes.

Porém sua maior força, além da inteligência, é a humanidade interior  do personagem, traduzida no espírito de uma certa mineiridade na resolução de conflitos, uma mistura do espírito da conciliação com a sagacidade e a valentia de um personagem de Guimarães Rosa, um jeito de ser típico do estado, que lhe norteia em suas aventuras, mesmo sendo Celton de outro planeta, é um Mineirão.  

Se os heróis americanos vivem em cidades cênicas  espelhadas em sua realidade, Gotham City, Central City e outras, Celton vive nas ruas belo-horizontinas, talvez este seja um de seus encantos , o herói transita pelas mesmas ruas e avenidas que seus leitores e seu criador, os amigos do mecânico Celton e sua namorada parecem com tantos outros moradores da capital, são normais, se vestem normalmente, andam em ônibus, moram em bairros que existem ,frequentam lugares reais, dirigem automóveis nacionais.

A fantasia, claro que se faz presente também, tanto que um de seus melhores amigos é sósia de um ex-presidente e tem uma sogra que é uma bruaca apavorante ,que mete medo até em satanás. É o seu toque de humor.

A cidade é outro personagem, esta é apresentada em detalhes ao leitor, o autor é muitas vezes fotográfico em seu traço, lembro de uma história em que reproduziu até a placa de inauguração de um viaduto. Talvez este seja um dos fatores que explicam o sucesso deste personagem, sua identificação com seu público.

Sua publicação, a hilária "O Combate da Sogra com o Capeta ultrapassou 45 mil exemplares vendidos, sem dúvida um sucesso do quadrinista, tão heroico como sua criação, que vindo do interior acreditou em seu sonho e bancou sozinho suas publicações.

Duvido que ele se lembre de mim, e do que conversou comigo há tantos anos, mas nunca esqueci deste autor/personagem de placa na mão que não teve medo de enfrentar o pior inimigo de todos os quadrinistas brasileiros, o mercado.

E ele mostrou que enfrenta e vence este desfio de peito aberto, ou melhor, enfrenta e vence usando um terno amarelo.